letras longas
Monday, 12 October 2009
Os corvos
Monday, 17 March 2008
Série Romances dos jardins de Mount Street
Defronte os jardins de Mount Street, ligados a Londres por passagens estreitas onde os prédios se encostam. Os jardins são um quadrado de relva rara e aparada onde crescem árvores enormes sem fruto. Os bancos do jardim são oferecidos aos amantes que morrem - cada um exibe uma placa metálica onde se mandou gravar uma dedicatória curta. Os amantes que sobram vivem mas não se cansam, e passeiam abusivamente naqueles jardins neutros e bonitos. Quem anda neles não consegue ver o imenso Hyde Park, que se estende por trás dos prédios a poente e onde passeiam turistas e homens de negócios. Ali nos jardins só passeiam os amantes que sobram ao fim do romance. E quem mora naqueles prédios à volta consegue ver o parque, ao fundo, e os jardins, abaixo. As histórias seguintes são sobre essas pessoas.
1.1
Reunam-se na mente exigente todos os barulhos desagradáveis da vida tipicamente urbana, e poupem-me à necessidade de descrevê-los. Desse lodo sonoro Stella emerge como uma nadadora competente, cínica, que já sabe que é impossível vencer o fedor urbano do ruído.
Chegada ao terceiro andar do seu bloco, oeste do jardins, com os sugeridos ruídos a pingarem desordenadamente do seu corpo, ajoelha-se perante a cama onde dorme P e coloca a face ao nível da dele.
Olha-o com olhos desiludidos mas verdes e diz:
- Tu sonhas muito devagar nessa cama comprida.
1.2
O tempo é a espuma que absorve a acção. O Homem ocupa o espaço e a mente mas não ocupa o tempo. O tempo é ocupado pelas palavras. O amor é absorvido pelo tempo e os corpos dos amantes são lentamente devolvidos à competente digestão da terra. Acima desta agitam-se os nomes. O tempo não os absorve de imediato, por isso ficam por aí a morrer e decompor-se até lhe ser mais suave a digestão.
Ora se há uma revolução na conservadoramente liberal Londres ela é a revolução do tempo: Londres está a rebentar de tempo. O tempo é tanto que parece que Londres é eterna. Não a Londres que atravessou vinte séculos, mas a Londres de hoje. O tempo entretanto encontra-se bem alimentado com tão farta acção e natural é que não se credite àquele taralhouco anafado grandes andanças, por isso já ninguém acredita que vá sair dali passado ou futuro. E quanto mais a cidade avança mais ele pára.
Stella sente vergonha do tempo. A afirmação é substanciada analiticamente: Stella sente-se tão embaraçada com a fraqueza do mundo perante o tempo que frequentemente sustem a respiração para o contrariar, até latejar uma veia na testa ou sentir uma tontura que a relembra da promíscua liberdade do corpo humano. Stella sonha e às vezes adormece nos braços de P, mas é raro falar-lhe. Mas mais que isso, Stella escreve “amor!” entre os versos nos livros de poemas que P arruma por ordem alfabética de autor nas prateleiras da sala – que dá para o Hyde Park, tão vasto que não se crê que haja Londres para lá dele. P nunca relê os seus livros de poemas – embora os leia freneticamente, raramente deixando que cada livro dure um dia completo - e por isso não sabe que Stella escreve “amor!” às suas escondidas. Stella lembra-se do dia em que P chegou a Londres sob dois caixotes pesadíssimos cheios de livros de poemas que nunca iria reler, sem saber expressar uma única ideia em Inglês – a relação deles aí não tinha tempo.
1.3
Havia então apenas um momento em que precisavam de comunicar: era quando o pai de P telefonava. Isso acontecia uma vez por semana, geralmente ao Domingo. Como este era o único telefonema dirigido a P, era sempre Stella que ia atender. No começo não percebia imediatamente quem era, mas a crescente aflição do outro lado, numa repetição cómica da letra P em Inglês, acabaria por ser recompensada. Ela então chamava-o usando a mesma repetição embaraçante. P ficava a falar com o pai por uma meia hora, e era durante esse tempo que ela ia escrever “amor!” nos seus livros de poemas. Quando terminava a chamada faziam amor. No fim ele acabava rapidamente de ler um livro que estivesse ainda a meio, apagavam as luzes e dormiam.
Ambos trabalhavam. Stella nunca percebera muito bem onde era o trabalho dele. Ela saía sempre mais cedo e por isso nunca o pôde acompanhar – seria mais indicado dizer seguir. Mais indicado e menos literário: ela nunca o seguia. A relação, como disse, ainda não tinha tempo. Ela tinha-o, ele também, mas a relação era totalmente desprovida dele: na verdade, se a relação parasse abruptamente, nunca teria acontecido. A ausência de tempo na relação depositava mais tempo em tudo o que faziam, e cada acto parecia eterno: o pausado caminho diário para a estação de Green Park, passando pela famosa montra do Mayfair exibindo mapas do mundo de dois por dois metros, parecia não ter fim – e como isso parecia perfeito!
Passadas algumas semanas o pai de P mostrava menos ânsia ao repetir o nome do filho. Enquanto não dizia o nome dele ela não o chamava. Sendo óbvio o embaraço do outro lado, a partir de certa altura Stella começou a arriscou algumas palavras em Inglês. Claro que ele não a podia compreender, mas não era o objectivo: o objectivo era queimar tempo. Cedo começou a falar-lhe de tudo o que calava durante o dia. Quando sentia que tinha chegado ao fim, chamava P.
A começo o pai não dizia nada, limitando-se a ouvi-la. Mas quando começou a sentir-se mais confiante, e não pressentindo censura, começou também ele a falar. Stella tentava interpretar as pequenas variações no tom de voz, no ritmo, no tempo que demorava. Por vezes parecia-lhe demasiado aleatório, e então usufruía poder abstrair-se do sentido, não lhe sendo esperados conselhos, reprimendas e incentivos, administrados conforme alguma receita social que manifestamente ignorava. Como não se entendiam, não se interrompiam: falavam alternadamente por períodos cada vez mais prolongados, e a P restava menos tempo de conversa com o pai.
Foi aí que P começou a aprender Inglês. Comprou livros e cassetes, que escondia de Stella para que a surpresa tivesse maior impacto. Passadas duas ou três semanas veio à sala, onde Stella falava com o pai dele, e disse-lhe:
- I love you. I love you and I am ready to say it.
Foi a primeira vez que houve silêncio entre os dois. Foi silêncio que durou segundos mas que segundos foram estes: imaginemos, de novo, não um, mas dois nadadores confiantes depois de treinarem durante anos os mergulhos. Todos esperam que eles venham à tona no grande dia. Mas o tempo é mais denso que a água.
1.4
Stella não conseguirá amar porque estará demasiado ocupada a sentir. Ao contrário do que se diz, uma pessoa apaixonada não sente; uma pessoa apaixonada é uma pessoa insensível. A pessoa apaixonada é leve, e o mundo fica-lhe com o peso. O mundo exercita-se com os pesos libertos das pessoas apaixonadas, assim ocupando o tempo. Quando P anunciou que a amava, ela sentiu-se responsável por esse amor: se Stella morresse, nunca tivesse vivido - se o tempo parasse -, o amor deixaria de existir. E o amor podia bem ser a coisa mais bonita que já sentiram por ela. Era demasiado importante que tomasse esse fardo. Não havia, pois, tempo a perder. Desligou o telefone em silêncio e olhava-o. Ele fitava-a de volta, impunemente. Stella tinha agora três opções, e todas requeriam responder-lhe. Ocorrem imediatamente três formas possíveis: a primeira, muito sincera e pouco honesta, seria agradecer-lhe. A segunda, menos apaixonada, envolveria começar a chorar e culpá-lo por isso. A terceira, cobarde, consistiria em dizer que não o amava, e que aquela relação era demasiado gramática para ter lógica. Haveria outras, e nenhuma a deixaria mais leve depois da frase de P; todas se podem, pois, resumir àquelas três. Foi talvez então que olhou humildemente para o telefone para ver se o tinha mesmo desligado. Sim. Estava pousado. Não se perdeu nada em verificar. Rapidamente devolveu o olhar a P, onde caía pesadíssimo.
Saiu-lhe que também o amava. Lamentou não o conseguir dizer na sua língua. P arregalou os olhos, prontamente anulando esse impulso, e ficou a estudá-la demoradamente. Anunciou que não voltaria a falar na sua língua pátria. Aquilo que não soubesse expressar em Inglês não era suficientemente importante.
- E o pai? O teu pai. Como vais falar com ele? – perguntou, com renovado fulgor.
- Como tu. Tu falas com ele em Inglês.
2.1
O Homem ocupa espaço, mas será mais correcto dizer que ocupa espaços, e um de cada vez. O homem ocupa pois um espaço à vez, e não me estarei a enganar se disser que um espaço que o homem não ocupa é um espaço a ocupar um homem. Ocupa então o homem o espaço à sua escolha, e a mente ocupa-se de todos os outros. E o tempo? O tempo não se ocupa. O tempo passa.
Da estação de Green Park, no Mayfair, à das Docklands, no acrescento leste ao bairro financeiro de Londres, vão hora e meia por baixo e por cima do betão cinzento que é terra de cidade, isto com sorte, não havendo a canícula de Agosto de dilatar os carris do metro e encerrarem-no, e à superfície não havendo manifestações de milhões a marchar atrás de um, ou ciclistas em bando, pássaros que abrindo o calor rasam a cidade, fechando as grandes vias e promovendo um estilo de vida saudável, com os condutores à beira de um ataque cardíaco, ou recebendo-se alguma estrela de cinema, da política ou dos negócios, com a Rússia, com os EUA, para baixo não há negócios, mas há cortesias que também ocupam espaço por volta da hora do pequeno-almoço em Whitehall. Ora de Green Park sai-se em Victoria, calcorreia-se meio kilometro debaixo da terra, que é betão, envolvido em milhões de azulejos brancos ansiosamente pequenos, isto se o corredor para a linha circular e distrital estiver aberto, se não estiver sobem-se as escadas rolantes, sai-se da estação, atravessam-se as duas vias dos táxis, depois as quatro dos autocarros, dali saem quase todos para Norte, mesmo quando vão para Leste vão para Norte, Victoria está a sul e a Oeste, há uma estranha obsessão de Londres pelos pólos, porventura por estarem tão distantes, e volta-se a descer, e se não tiver bilhete comprado junta-se à longa fila onde se podem ouvir asiáticos a mastigar folhados de salsicha e bebericando ribenas com 5% de sumo de morango, dá para ler as descrições no pacote, isto para quem sabe inglês, aquele ali de turbante sabê-lo-á já melhor que Victoria, que é inglesa, e Victoria personagem e Victoria estação não são acidentes verbais, Victoria personagem aguarda pela sua vez na estação de Victoria para carregar o seu bilhete pré-comprado, a que se chama Ostra. Victoria, que emerge entre dois fios brancos que lhe saem das orelhas, ouve Depeche Mode, carrega o seu cartão, passa-o na superfície indicada, desce a pique nas escadas rolantes por entre anúncios a bancos onde se lê que a proximidade é uma questão de tempo, promoções a viagens distantes cada vez mais baratas, e mais distantes, e ao último livro áudio que saiu do Dan Brown. Na plataforma do tubo onde passa o metro deixa seguir a primeira leva, vão metade dos que esperam com ela, e vem outro, ainda não entra nesse, passa os olhos pelo jornal gratuito da manhã, é neste que vai entrar. Londres inteira percorre-se diária e lentamente, como um ritual religioso que se praticou tantas vezes que já não compensa abandonar. E Victoria terá que deixar passar mais de quinze estações, mudar para o comboio à superfície, e passar por outras dez. Mount Street, de onde sai Victoria diariamente, fica no centro de Londres, e as Docklands, para onde vai Victoria, também ficam no centro, e se o centro fosse um bocadinho maior não havia espaço para a periferia.
2.2
Isolando os olhos de tudo aquilo que se deixa ver, amava-o ambiciosamente. Ele pintava-a, sem perspectiva. Não devemos concluir que, só por ser pintor, ele tem de ter um nome. Ela não se lembrava do nome dele e não parecia embaraçada com isso. Pinta-me. Toda. E deixava cair a toalha, com os lábios ainda manchados da noite anterior. Pinta-me bonita. Pinta-me velha e bonita. Não havia tempo, ela tinha que estar nas Docklands em menos de uma hora.
- Pinta-me só velha então.
Ele fazia o melhor que podia, talentosa e desajeitadamente. É difícil imaginá-la velha, pensava. Como é que uma mulher destas pode envelhecer? A verdade é que as mulheres bonitas carregam o fardo da vida e vão deixando cair palhinhas até já não haver nem fardo nem vida. Passam a beleza para outras, que virão depois, e o fardo devolve-lhes a vida mesmo a tempo de morrerem, pensava ele, mas, convenhamos, ele não tem nome, pois que legitimidade tem para pensar estas coisas.
- Estás a pensar no quê? – perguntava ela, enfiando os brincos com dificuldade nos buracos de orelha visivelmente irritados.
- Que és bonita e não tenho tempo para te pintar velha.
- Tens todo o tempo. És um artista.
E dizendo isto veste-se, dá-lhe um beijo na testa e sai de casa.
Abandonava-o como todas as manhãs desde que se conheceram, há quatro dias, ou cinco, estar fechado em casa dificulta a percepção do tempo. Continuava a pintá-la mesmo depois dela ter saído, porque não havia tempo a perder. Tinha medo que ela deixasse de o querer ali em Mount Street antes dele conseguir terminar o retrato.
Thursday, 9 August 2007
O Encefalópato Proselitista
Foi nessa sexta-feira que o bispo chegou, com seu porte em linho bordado com motivos do campo, ali estava a enxada, o pão e o sol. E veio o prelado a declarar que era bom o espectáculo, e depois do jantar diria que do fundo do poço via um chamamento à vida interna. As alegorias foram fermentando nas dádivas da uva, e o cardeal, ouvindo-o de interposta pessoa, não achou em grande segurança deixar João Baptista enfiado num poço numa aldeia do Alentenjo, ainda mais em reforma agrária. Mandou parar aquela história dos baptizados de cabeça para baixo, e alugou uma carrinha para levaria as crianças e famílias para Beja.
Foi aí que decidimos vir até Lisboa para ver um país baptizado de cabeça para baixo.
Sunday, 15 July 2007
Filtro
- Mas isto não é uma refeição! - ripostou a senhora que estava sentada no restaurante normal
- Então o que é, minha senhora? - perguntou o empregado de porte feito
- Isto é uma tesoura - respondeu e acusou
- Ora aí tem a sua refeição, minha senhora - acedeu, já com certa condescendência: à idade da senhora desculpava-se que não reconhecesse uma refeição.
- Ó moço, chame aí o gerente!- ordenou ela
- O gerente hoje não está. Se o fosse chamar, ficaria chocada porque ele anda sempre nú, e ademais o problema não se daria por resolvido. Não prefere antes aceitar a sua refeição como é? - sugeriu o empregado
- Você está a gozar comigo? Neste restaurante não se pode comer comida normal? - insistiu a senhora, já cansada
- Ó minha senhora, o que pediu foi uma refeição. Se tivesse pedido comida tinha que me dizer se era carne, peixe, se vinha com salada, e outras coisas. Só pediu uma refeição - explicou, calmamente, o empregado
- O que é que eu faço com uma tesoura? Diz-me? - quis saber
- O que faz geralmente com as suas refeições? - o empregado já se sentara numa cadeira adjacente
- Como-as - respondeu, ainda com esperança
- Não, ninguém come refeições. Como lhe disse, o que se come é carne, peixe, e toda a sorte de coisas que têm que ser escolhidas antes. Uma refeição não se come. - explicou
- Isso são brincadeiras de palavras. E quanto é que vou pagar por esta tesoura? Espero que não mais que o que pagaria no supermercado. - ameaçou
- Terá que pagar certamente um pouco mais, porque nós também temos que viver e ter as nossas próprias refeições. Por exemplo, eu ontem fui fazer amor com uma rapariga dos seus vinte e poucos anos...
- O que é que a sua vida sexual tem a ver com isto? - interrompeu
- Não, não: não se trata de vida sexual, porque dela nunca daria notícia a si, que mal conheço! Trata-se de amor. Para ter tido sexo teria que ter escolhido uma rapariga. Para fazer amor eu comprei um ramo de rosas.
- E não há o perigo que esta tesoura corte essas rosas?
- Assim é. Mas tenho que a vida é um risco. E eu tenho que cumprir a minha profissão.
- Porque não tenta mudar de profissão? Uma que não tenha tesouras nem rosas, mas carne e raparigas?
- Toda a gente faz isso. Se eu o fizesse, iniciar-se-ia um paradoxo insolúvel: Se mais eu pudesse começar a fazê-lo, toda a gente afinal não era toda a gente, e eu seria toda a gente a mais. A mim restam-me as tesouras e as rosas.
- Mas as suas tesouras e as suas rosas não são o que fica depois dos outros fazerem lá as coisas deles? - agora perguntou
- Se as pessoas todas comem carne e peixe e têm sexo e mudam de canais com comandos e puxam o pedal do travão para desacelerar o carro, não restam travões que acelerem ou mudanças que não se escolham ou amor e as refeições; em suma, não posso existir porque todas as pessoas fazem todas as coisas.
A senhora levou a tesoura ao cesto dos legumes e cortou a alça.
- Se bem o percebi, agora não cairam couves ou cenouras ou beterraba. Pois não?
- Seria bom, minha amiga, seria bom. Mas cairam. Estão por todo o lado, porque a senhora comprou tudo isso, cortou a alça e eles cairam.
- Então... que faço? Não compro nada?
- Estará a comprar a sua própria cegueira, mas continuará a não ver as mesmas coisas. Eles vão comprar a fruta que já se plantou.
- O que faço?
- Coma a sua tesoura. Está a ficar fria.
Monday, 4 June 2007
Milagre
Dizia Paulo VI, o papa que foi a Fátima sem passar por Lisboa. Nos anos 60, o zero escorrido em sabonete líquido de haxixe, a serpente de testesterona e estrogénio encantada na história dialética da marionética luta de classes, os bons costumes na gamela do cão de Pavlov, os efeitos rápidos sobre a personalidade salivada. Aumentos.
Os pais ofereceram-lhe o carrinho. Por ... “brincadeira”. Atrelado vinha o “incentivo”, da tia, solteirona, para quando, para quando se faz ela “mulher”, emprenha, gera, dá vida a algo. Sorria de olhos postos na barriga. Daí às rendas e roupinhas para o vestir, ao bébé, ainda não gerado, foi um passo breve no caminho desses anos solícitos, pequenos, arredondados às décimas de dias.
E a barriga inchou, inchou, deu-se por cheia, e foi nas luvas justas nos dedos do médico, aos nove meses, não parteiro, psiquiatra, psicossomaticidade histérica, gravidez inexistente, pressionando a barriga e deixando o bébé insuflado de pânico partir como um balão cheio de ar.
O milagre de Fátima é um milhão de crentes no milagre de Fátima. A gravidez gerada no cerebelo difere da gravidez gerada no útero pela carne satisfeita de efemeridade. Pelas linhas saltitonas das ideias dos pintores, dos artistas, dos génios, dos loucos que moldam o ar grávido nos olhos fúteis das mulheres belas.