Lembro-me às vezes de uma sexta-feira à tarde em que não aconteceu nada. Pegámos no carro e fizemos outras coisas cujo predicado não adere credivelmente ao verbo. Na aldeia vizinha não havia água para baptizar e tinham desviado o canal da rega para o poço à frente da igreja. Acima do fundo gretado do poço contavam-se dois dedos de água castanha. De tal maneira era que o balde não tocava a água, e se tinha que atar uma corda aos pés do baptizando, descendo-o de cabeça para baixo. As velhas da aldeia diziam, entre o prefixo buço da boçalidade, que eram tais os tempos que já se tinha de atirar crianças para a remissão dos pecados; havia catequistas que temiam que a pureza não passasse da raíz dos cabelos; e um veterinário atiçou polémica no jornal da região, num artigo intitulado o encefalópato proselitista. Eram dias de muito calor. O padre ordenou que o baptismo passasse às noites de sexta para sábado, e foi numa delas que decidimos ir ver aquilo - ainda não enchera a aldeia de turistas e curiosos. Na verdade, nunca viria a encher.
Foi nessa sexta-feira que o bispo chegou, com seu porte em linho bordado com motivos do campo, ali estava a enxada, o pão e o sol. E veio o prelado a declarar que era bom o espectáculo, e depois do jantar diria que do fundo do poço via um chamamento à vida interna. As alegorias foram fermentando nas dádivas da uva, e o cardeal, ouvindo-o de interposta pessoa, não achou em grande segurança deixar João Baptista enfiado num poço numa aldeia do Alentenjo, ainda mais em reforma agrária. Mandou parar aquela história dos baptizados de cabeça para baixo, e alugou uma carrinha para levaria as crianças e famílias para Beja.
Foi aí que decidimos vir até Lisboa para ver um país baptizado de cabeça para baixo.
Foi nessa sexta-feira que o bispo chegou, com seu porte em linho bordado com motivos do campo, ali estava a enxada, o pão e o sol. E veio o prelado a declarar que era bom o espectáculo, e depois do jantar diria que do fundo do poço via um chamamento à vida interna. As alegorias foram fermentando nas dádivas da uva, e o cardeal, ouvindo-o de interposta pessoa, não achou em grande segurança deixar João Baptista enfiado num poço numa aldeia do Alentenjo, ainda mais em reforma agrária. Mandou parar aquela história dos baptizados de cabeça para baixo, e alugou uma carrinha para levaria as crianças e famílias para Beja.
Foi aí que decidimos vir até Lisboa para ver um país baptizado de cabeça para baixo.