Monday, 17 March 2008

Série Romances dos jardins de Mount Street

0.

Defronte os jardins de Mount Street, ligados a Londres por passagens estreitas onde os prédios se encostam. Os jardins são um quadrado de relva rara e aparada onde crescem árvores enormes sem fruto. Os bancos do jardim são oferecidos aos amantes que morrem - cada um exibe uma placa metálica onde se mandou gravar uma dedicatória curta. Os amantes que sobram vivem mas não se cansam, e passeiam abusivamente naqueles jardins neutros e bonitos. Quem anda neles não consegue ver o imenso Hyde Park, que se estende por trás dos prédios a poente e onde passeiam turistas e homens de negócios. Ali nos jardins só passeiam os amantes que sobram ao fim do romance. E quem mora naqueles prédios à volta consegue ver o parque, ao fundo, e os jardins, abaixo. As histórias seguintes são sobre essas pessoas.

1.1

Reunam-se na mente exigente todos os barulhos desagradáveis da vida tipicamente urbana, e poupem-me à necessidade de descrevê-los. Desse lodo sonoro Stella emerge como uma nadadora competente, cínica, que já sabe que é impossível vencer o fedor urbano do ruído.

Chegada ao terceiro andar do seu bloco, oeste do jardins, com os sugeridos ruídos a pingarem desordenadamente do seu corpo, ajoelha-se perante a cama onde dorme P e coloca a face ao nível da dele.

Olha-o com olhos desiludidos mas verdes e diz:

- Tu sonhas muito devagar nessa cama comprida.

1.2

O tempo é a espuma que absorve a acção. O Homem ocupa o espaço e a mente mas não ocupa o tempo. O tempo é ocupado pelas palavras. O amor é absorvido pelo tempo e os corpos dos amantes são lentamente devolvidos à competente digestão da terra. Acima desta agitam-se os nomes. O tempo não os absorve de imediato, por isso ficam por aí a morrer e decompor-se até lhe ser mais suave a digestão.

Ora se há uma revolução na conservadoramente liberal Londres ela é a revolução do tempo: Londres está a rebentar de tempo. O tempo é tanto que parece que Londres é eterna. Não a Londres que atravessou vinte séculos, mas a Londres de hoje. O tempo entretanto encontra-se bem alimentado com tão farta acção e natural é que não se credite àquele taralhouco anafado grandes andanças, por isso já ninguém acredita que vá sair dali passado ou futuro. E quanto mais a cidade avança mais ele pára.

Stella sente vergonha do tempo. A afirmação é substanciada analiticamente: Stella sente-se tão embaraçada com a fraqueza do mundo perante o tempo que frequentemente sustem a respiração para o contrariar, até latejar uma veia na testa ou sentir uma tontura que a relembra da promíscua liberdade do corpo humano. Stella sonha e às vezes adormece nos braços de P, mas é raro falar-lhe. Mas mais que isso, Stella escreve “amor!” entre os versos nos livros de poemas que P arruma por ordem alfabética de autor nas prateleiras da sala – que dá para o Hyde Park, tão vasto que não se crê que haja Londres para lá dele. P nunca relê os seus livros de poemas – embora os leia freneticamente, raramente deixando que cada livro dure um dia completo - e por isso não sabe que Stella escreve “amor!” às suas escondidas. Stella lembra-se do dia em que P chegou a Londres sob dois caixotes pesadíssimos cheios de livros de poemas que nunca iria reler, sem saber expressar uma única ideia em Inglês – a relação deles aí não tinha tempo.

1.3

Havia então apenas um momento em que precisavam de comunicar: era quando o pai de P telefonava. Isso acontecia uma vez por semana, geralmente ao Domingo. Como este era o único telefonema dirigido a P, era sempre Stella que ia atender. No começo não percebia imediatamente quem era, mas a crescente aflição do outro lado, numa repetição cómica da letra P em Inglês, acabaria por ser recompensada. Ela então chamava-o usando a mesma repetição embaraçante. P ficava a falar com o pai por uma meia hora, e era durante esse tempo que ela ia escrever “amor!” nos seus livros de poemas. Quando terminava a chamada faziam amor. No fim ele acabava rapidamente de ler um livro que estivesse ainda a meio, apagavam as luzes e dormiam.

Ambos trabalhavam. Stella nunca percebera muito bem onde era o trabalho dele. Ela saía sempre mais cedo e por isso nunca o pôde acompanhar – seria mais indicado dizer seguir. Mais indicado e menos literário: ela nunca o seguia. A relação, como disse, ainda não tinha tempo. Ela tinha-o, ele também, mas a relação era totalmente desprovida dele: na verdade, se a relação parasse abruptamente, nunca teria acontecido. A ausência de tempo na relação depositava mais tempo em tudo o que faziam, e cada acto parecia eterno: o pausado caminho diário para a estação de Green Park, passando pela famosa montra do Mayfair exibindo mapas do mundo de dois por dois metros, parecia não ter fim – e como isso parecia perfeito!

Passadas algumas semanas o pai de P mostrava menos ânsia ao repetir o nome do filho. Enquanto não dizia o nome dele ela não o chamava. Sendo óbvio o embaraço do outro lado, a partir de certa altura Stella começou a arriscou algumas palavras em Inglês. Claro que ele não a podia compreender, mas não era o objectivo: o objectivo era queimar tempo. Cedo começou a falar-lhe de tudo o que calava durante o dia. Quando sentia que tinha chegado ao fim, chamava P.

A começo o pai não dizia nada, limitando-se a ouvi-la. Mas quando começou a sentir-se mais confiante, e não pressentindo censura, começou também ele a falar. Stella tentava interpretar as pequenas variações no tom de voz, no ritmo, no tempo que demorava. Por vezes parecia-lhe demasiado aleatório, e então usufruía poder abstrair-se do sentido, não lhe sendo esperados conselhos, reprimendas e incentivos, administrados conforme alguma receita social que manifestamente ignorava. Como não se entendiam, não se interrompiam: falavam alternadamente por períodos cada vez mais prolongados, e a P restava menos tempo de conversa com o pai.

Foi aí que P começou a aprender Inglês. Comprou livros e cassetes, que escondia de Stella para que a surpresa tivesse maior impacto. Passadas duas ou três semanas veio à sala, onde Stella falava com o pai dele, e disse-lhe:

- I love you. I love you and I am ready to say it.

Foi a primeira vez que houve silêncio entre os dois. Foi silêncio que durou segundos mas que segundos foram estes: imaginemos, de novo, não um, mas dois nadadores confiantes depois de treinarem durante anos os mergulhos. Todos esperam que eles venham à tona no grande dia. Mas o tempo é mais denso que a água.

1.4

Stella não conseguirá amar porque estará demasiado ocupada a sentir. Ao contrário do que se diz, uma pessoa apaixonada não sente; uma pessoa apaixonada é uma pessoa insensível. A pessoa apaixonada é leve, e o mundo fica-lhe com o peso. O mundo exercita-se com os pesos libertos das pessoas apaixonadas, assim ocupando o tempo. Quando P anunciou que a amava, ela sentiu-se responsável por esse amor: se Stella morresse, nunca tivesse vivido - se o tempo parasse -, o amor deixaria de existir. E o amor podia bem ser a coisa mais bonita que já sentiram por ela. Era demasiado importante que tomasse esse fardo. Não havia, pois, tempo a perder. Desligou o telefone em silêncio e olhava-o. Ele fitava-a de volta, impunemente. Stella tinha agora três opções, e todas requeriam responder-lhe. Ocorrem imediatamente três formas possíveis: a primeira, muito sincera e pouco honesta, seria agradecer-lhe. A segunda, menos apaixonada, envolveria começar a chorar e culpá-lo por isso. A terceira, cobarde, consistiria em dizer que não o amava, e que aquela relação era demasiado gramática para ter lógica. Haveria outras, e nenhuma a deixaria mais leve depois da frase de P; todas se podem, pois, resumir àquelas três. Foi talvez então que olhou humildemente para o telefone para ver se o tinha mesmo desligado. Sim. Estava pousado. Não se perdeu nada em verificar. Rapidamente devolveu o olhar a P, onde caía pesadíssimo.

Saiu-lhe que também o amava. Lamentou não o conseguir dizer na sua língua. P arregalou os olhos, prontamente anulando esse impulso, e ficou a estudá-la demoradamente. Anunciou que não voltaria a falar na sua língua pátria. Aquilo que não soubesse expressar em Inglês não era suficientemente importante.

- E o pai? O teu pai. Como vais falar com ele? – perguntou, com renovado fulgor.

- Como tu. Tu falas com ele em Inglês.

Apagou as luzes enquanto faziam amor. Foi a primeira vez que o fazia. Com P ou com qualquer outro. Apagou as luzes, desligou o despertador, e no dia seguinte o caminho para o trabalho pareceu-lhe demasiado curto. Sentia-se feliz e não havia tempo que a pudesse ajudar.

2.1


O Homem ocupa espaço, mas será mais correcto dizer que ocupa espaços, e um de cada vez. O homem ocupa pois um espaço à vez, e não me estarei a enganar se disser que um espaço que o homem não ocupa é um espaço a ocupar um homem. Ocupa então o homem o espaço à sua escolha, e a mente ocupa-se de todos os outros. E o tempo? O tempo não se ocupa. O tempo passa.

Da estação de Green Park, no Mayfair, à das Docklands, no acrescento leste ao bairro financeiro de Londres, vão hora e meia por baixo e por cima do betão cinzento que é terra de cidade, isto com sorte, não havendo a canícula de Agosto de dilatar os carris do metro e encerrarem-no, e à superfície não havendo manifestações de milhões a marchar atrás de um, ou ciclistas em bando, pássaros que abrindo o calor rasam a cidade, fechando as grandes vias e promovendo um estilo de vida saudável, com os condutores à beira de um ataque cardíaco, ou recebendo-se alguma estrela de cinema, da política ou dos negócios, com a Rússia, com os EUA, para baixo não há negócios, mas há cortesias que também ocupam espaço por volta da hora do pequeno-almoço em Whitehall. Ora de Green Park sai-se em Victoria, calcorreia-se meio kilometro debaixo da terra, que é betão, envolvido em milhões de azulejos brancos ansiosamente pequenos, isto se o corredor para a linha circular e distrital estiver aberto, se não estiver sobem-se as escadas rolantes, sai-se da estação, atravessam-se as duas vias dos táxis, depois as quatro dos autocarros, dali saem quase todos para Norte, mesmo quando vão para Leste vão para Norte, Victoria está a sul e a Oeste, há uma estranha obsessão de Londres pelos pólos, porventura por estarem tão distantes, e volta-se a descer, e se não tiver bilhete comprado junta-se à longa fila onde se podem ouvir asiáticos a mastigar folhados de salsicha e bebericando ribenas com 5% de sumo de morango, dá para ler as descrições no pacote, isto para quem sabe inglês, aquele ali de turbante sabê-lo-á já melhor que Victoria, que é inglesa, e Victoria personagem e Victoria estação não são acidentes verbais, Victoria personagem aguarda pela sua vez na estação de Victoria para carregar o seu bilhete pré-comprado, a que se chama Ostra. Victoria, que emerge entre dois fios brancos que lhe saem das orelhas, ouve Depeche Mode, carrega o seu cartão, passa-o na superfície indicada, desce a pique nas escadas rolantes por entre anúncios a bancos onde se lê que a proximidade é uma questão de tempo, promoções a viagens distantes cada vez mais baratas, e mais distantes, e ao último livro áudio que saiu do Dan Brown. Na plataforma do tubo onde passa o metro deixa seguir a primeira leva, vão metade dos que esperam com ela, e vem outro, ainda não entra nesse, passa os olhos pelo jornal gratuito da manhã, é neste que vai entrar. Londres inteira percorre-se diária e lentamente, como um ritual religioso que se praticou tantas vezes que já não compensa abandonar. E Victoria terá que deixar passar mais de quinze estações, mudar para o comboio à superfície, e passar por outras dez. Mount Street, de onde sai Victoria diariamente, fica no centro de Londres, e as Docklands, para onde vai Victoria, também ficam no centro, e se o centro fosse um bocadinho maior não havia espaço para a periferia.

2.2

Isolando os olhos de tudo aquilo que se deixa ver, amava-o ambiciosamente. Ele pintava-a, sem perspectiva. Não devemos concluir que, só por ser pintor, ele tem de ter um nome. Ela não se lembrava do nome dele e não parecia embaraçada com isso. Pinta-me. Toda. E deixava cair a toalha, com os lábios ainda manchados da noite anterior. Pinta-me bonita. Pinta-me velha e bonita. Não havia tempo, ela tinha que estar nas Docklands em menos de uma hora.

- Pinta-me só velha então.

Ele fazia o melhor que podia, talentosa e desajeitadamente. É difícil imaginá-la velha, pensava. Como é que uma mulher destas pode envelhecer? A verdade é que as mulheres bonitas carregam o fardo da vida e vão deixando cair palhinhas até já não haver nem fardo nem vida. Passam a beleza para outras, que virão depois, e o fardo devolve-lhes a vida mesmo a tempo de morrerem, pensava ele, mas, convenhamos, ele não tem nome, pois que legitimidade tem para pensar estas coisas.

- Estás a pensar no quê? – perguntava ela, enfiando os brincos com dificuldade nos buracos de orelha visivelmente irritados.

- Que és bonita e não tenho tempo para te pintar velha.

- Tens todo o tempo. És um artista.

E dizendo isto veste-se, dá-lhe um beijo na testa e sai de casa.

Abandonava-o como todas as manhãs desde que se conheceram, há quatro dias, ou cinco, estar fechado em casa dificulta a percepção do tempo. Continuava a pintá-la mesmo depois dela ter saído, porque não havia tempo a perder. Tinha medo que ela deixasse de o querer ali em Mount Street antes dele conseguir terminar o retrato.