Envolta num sobretudo comprido, que não tapava as longas abreviações das suas pernas, fumava um cigarro encostada à parede. Na escuridão, poucos a reconheciam e ninguém a abordava. Debruçava-se finalmente sobre ela um silêncio confortável. Aquela era a primeira noite em que o seu ex voto era exposto. A história do ex voto não é comprida, mas é elaborada. Esboçara-o para fazer parte de uma série sobre corvos, mas, como não tinha nenhum corvo, acabou por aceder a que ficasse na secção dos esboços desalinhados - este quadro, no entanto, tinha mais dos corvos que os outros que estavam cheios deles. No seu entendimento, já era velha demais para explicar que as sombras são, ainda para os artistas, a única revelação das formas. Mais velha seria para explicar isto aos convidados da exposição inaugural numa das melhores escolas de arte do país - sombras, pensava, também eles são sombras: só as sombras visitam uma exposição numa escola de arte depois desta fechar. E são sombras que cobrem tanto a luz que quase a extinguem (como uma criança que brinca com a chama da sua vela de aniversário, perante o nervosismo da mãe, cuja ambição é que o filho seja como os outros filhos que, após uma breve mas terna dificuldade, acabam por apagar a vela). Mas o que é uma sombra? Já antes os mecenas eram as pessoas que tinham o dinheiro. O que mudou foi quem o tem. Hoje em dia o dinheiro para a arte não vem do nobre, e já não vem do capitalista: vem do burocrata, que gere o orçamento dos contribuintes. O nobre usava a arte para se exibir; o capitalista, para ser exibido; e o burocrata, para ser exposto.
Mas o que é uma sombra? O ex voto no seu esboço consistia na imagem de um cadáver feminino que está sentado numa cadeira. A cadeira está reclinada para trás. Como que vinda de algures fora da composição - talvez do nível dos olhos de quem a olha -, a luz incide sobre o cadáver. Atrás da cadeira, como que vergada sob o peso dela, está alguém que chora. Como a luz incide sobre o cadáver, mas debaixo deste está a cadeira, quem chora está coberto por sombras. Não só somos desautorizados ao termos pena daquela infeliz que morreu, que resplandece gloriosamente na luz, como somos culpados - assumindo que a luz vem mesmo dos nossos olhos - pela obscuridade de quem a chora.
Mas o que é uma sombra? Quando os funcionários arrumavam os bolos que tinham sobrado, e tiravam os últimos copos das mãos dos organizadores, o marido chegou acompanhado por uma das visitantes. Ela pareceu confusa quando a visitante, que seguia afirmando algumas banalidades sociais sobre a sua arte, andava lentamente na direcção contrária à que eles normalmente tomariam - parece que a visitante ia para uma festa, com jornalistas e gente jovem associados às artes. O marido sorriu e, dando-lhe a mão, gentilmente direccionou-a para o caminho da casa deles. Talvez as rugas não deixassem perceber, mas debaixo da pele toda a flacidez se definira. E assim foram. Cumprir a rotina. Encher-se de luz e cobrir o mundo com sombras.